segunda-feira, 26 de julho de 2010

Inferno astral

Todo ano passo por um período onde as coisas não parecem fluir como sempre. É um somatório de pequenos acontecimentos desgastantes capazes de chatear qualquer um. Eu me sinto como um bambu na tempestade, envergando, mas ainda assim de pé. Quando alguém me cumprimenta e pergunta tudo bem? Eu já vou logo escancarando: mais ou menos, estou no meu inferno astral.

Sim, isso é verdade e compreende exatamente os trintas dias que antecedem nosso aniversário. Existem algumas explicações para entender estes trinta dias temidos antes da inauguração de uma nova idade. O aniversário nada mais é do que o marco de um novo ciclo solar na vida de uma pessoa, ou seja, o Sol passa pelo mesmo ponto do Zodíaco que estava quando nascemos sinalizando uma nova etapa para a nossa consciência. Os dias que antecedem esta renovação são exatamente os últimos do ciclo anterior que a consciência vinha atravessando. Os ciclos representam na Astrologia os estágios de todo e qualquer processo de desenvolvimento e o final de um ciclo se caracterizam pela agitação, mudança, instabilidade e desordem, somadas à insegurança em relação ao futuro que está por vir.

Então, melhor relaxar. Nada de grave me aconteceu. Foram pequenos acontecimentos, alguns hilários, que me roubaram um pouco a graça. Mas, se no dia do "A" eu estiver linda e formosa é a conta. Gosto tanto de aniversário que até no elevador diante de estranhos já vou logo avisando para me cumprimentarem porque é meu aniversário.

Fui ao centro da cidade para uma consulta, saí de casa em cima do laço já com os sessenta centavos para pagar o parquímetro na mão. Parei em frente ao local, caminhei até o parquímetro, paguei, peguei o ticket, voltei até o carro, abri a porta e coloquei o papel no painel, do lado do motorista. Quando fechei a porta do carro o papel voou para o lado do carona. Fiz a volta, abri o carro, peguei o papel e o coloquei de volta. Quando fechei a porta ele voou de novo, só que dessa vez desapareceu feito fumaça. Procurei no chão do carro, no painel, nos bancos, no lixinho e nada. O relógio seguiu sua vida e a minha consulta com hora marcada também. Voltei ao parquímetro para pagar de novo. Quando abri a carteira só tinha dinheiro em notas. Voltei até o carro porque lembrei que tinha umas moedas no console. Peguei um real e voltei ao parquímetro. Já tinha pagado meia hora, paguei mais uma. Voltei até o carro, abri a porta, coloquei o papel no painel e quando fechei a porta adivinhem o que aconteceu? O papel voou de novo. Ficou paradinho do lado direito do vidro, do lado do carona. Desisto. Avisei o porteiro do prédio onde eu tinha consulta, que pelo amor de Deus me defendesse. Moço: se o azulzinho aparecer o senhor, por favor, diga a ele que o papel não está no lugar porque voou.

Outra boa: acendi a lareira e fique mais ou menos duas horas sentada num pufe brincando com o fogo. No dia seguinte acordei entrevada, minha lombar parece que havia sido pisoteada por um elefante. Num tempo longo pelo calendário mais logo ali segundo a minha memória, eu passaria a noite inteira sentada em posição de índio e acordaria com o mesmo corpo.

Andréa Muller

Jornalista

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