A faxineira chegou pela primeira vez na minha casa vez desdentada, com a dentadura na bolsa e a desculpa de que machucava. Rápida, parecia uma máquina de limpeza e saiu deixando um rastro cheiroso de pinho-sol. Depois de quinze dias voltou e repetiu a dose, só que dessa vez estava mais bonita, com os dentes e sem dor. Voltou novamente quinze dias depois de batom cor de rosa e me fez uma revelação surpreendente: seu filho faria treze anos no dia seguinte. Ela esbanjava alegria e um grande orgulho. Perguntou onde ficava o prédio da Justiça, pois iria até lá pegar a certidão definitiva da guarda do filho.
A história é a seguinte: ela cuidava de crianças em sua própria casa quando recebeu um bebê de seis meses. Junto com ele a mãe deixou uma bolsa com trapos de roupa, o cordão umbilical e a pulseirinha que os bebês recebem na maternidade. A moleira estava sendo comida pelos piolhos e o pequeno pesava pouco mais de 3 quilos. O médico quando o examinou sugeriu que o menino fosse devolvido, pois dificilmente resistiria. O que poderia ter um final menos digno é de cair o queixo. A faxineira saiu do médico decidida a ser mãe, prometeu curar e salvar o menino e conseguiu.
Sabe-se lá tudo que não passou nesses anos todos. Ela não entrou em detalhes. Mas, pela sua felicidade, tudo valeu à pena. A outra, a mãe biológica, a encontrou na rua e, cara a cara, fez a revelação: ele é seu, sempre foi. Faça os papéis. Ainda bem que o anjo caiu nas mãos certas.
Essa mulher, que é um exemplo raro, me faz pensar sobre a seguinte questão: quando o amor começa? Quando as mães começam a amar seus filhos? Será que esse sentimento inicia-se tão logo o rebento saí do nosso ventre ou quando é cortado o cordão umbilical? Será que é no mesmo instante em que nossos olhos, ainda meio esbugalhados pelo esforço de trazer alguém ao mundo, fitam os dele?
Conheci mães que se extasiaram ao primeiro olhar e conheci outras que esperaram muitos dias até amar. Foram amando aos poucos, com a convivência, através da rotina, depois do primeiro banho, quando cicatrizaram os pontos, quando jogaram no lixo os sutiãs de amamentação. Cada vez que leio nos jornais sobre mães que matam seus bebês, que os largam diante de portas e becos quaisquer, não sou capaz de julgá-las nem de culpá-las. Sinto apenas vontade de entendê-las.
Andréa Muller
Jornalista
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