A expectativa é um alimento que pode ser saudável ou venenoso, dependendo da dose e do momento. Viver sem expectativa é desolador, triste, sem cor, esmaecido, sem aroma, sem nada. É como levar a vida sem lenço nem documento. O contrário é muito mais emocionante, colorido, esperançoso, parece mais real e concreto. Mas, também, pode ser frustrante, em muitos casos.
Esperamos ganhar na loteria, esperamos e-mails, telefonemas, flores, palavras ditas na hora certa, o presente almejado, o reconhecimento. Esperamos passar na prova, emagrecer cinco quilos, acabar com a celulite, esperamos que nossos filhos cresçam longe dos aborrecimentos, que sejam sempre protegidos, que nossos pais não nos deixem, que faça sol. Esperamos que a alma sossegue, que o amor aconteça, que o coração acelere.
É fato, passamos a vida esperando. A diferença é que tem gente que, mesmo esperando, realiza, está sempre fazendo acontecer, é ligado na tomada, não se queixa. Recebe tudo com delicadeza e afeto, acompanhado de um muito obrigado. Não precisam ser içados do fundo do poço, não se afogam nem se chafurdam na lama.
E há os que esperam atrapalhados que as coisas aconteçam. Parece que para esses coitados os dias tem mais do que vinte e quatro horas porque esperam muito, por muito tempo. São lentos nas decisões, nas emoções. Ficam de freio de mão puxado, mobilizados.
Nenhum dia é igual ao outro por mais que possa parecer. Nós também somos diferentes. Às vezes radiantes, na maioria das vezes normais como sempre, sonhadores, perplexos, atônicos, angustiados, felizes, infelizes. Nossa pilha também fica fraca e precisa ser recarregada. O difícil é compreender o fio que nos une ao bem estar. Tem dias que ele é tão curto que parece incapaz de nos unir a nada. Em outros momentos é tão longo e elástico que pode circular o planeta, puxando os tontos e os afogados do caminho.
As bocas de nossas mães, avós, amigas e até da manicure sempre dizem que tudo vem na hora certa. O problema é conseguir acatar essa sentença porque o que queremos, mesmo, é que à hora certa seja agora, nesse minutinho, neste restinho de dia que ainda temos pela frente. Convenhamos, é melhor dormir com as expectativas realizadas. Talvez para esses dias em que estamos de farol baixo, pilha fraca e elástico arrebentado tenha sido criada a paciência, o lexotan, a preguiça, a cama macia. Benditos sejam! Que acabe esse dia de uma vez.
Andréa Muller
Jornalista
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