domingo, 7 de março de 2010

Chororô

Não sei o que me aconteceu do dia 31 de janeiro para cá. Abriu-se em mim uma emoção tão a flor da pele que estou espantada e chorona. Desatei a chorar por qualquer coisa, pelo que de bom e de ruim aconteceu e até pelo que ainda está por vir e eu nem sei o que é. Melancolia braba mesmo. Naquelas que grudam na pele feito tatuagem e não dizem a que vieram, instalam-se sorrateiramente e ficam como esmalte vermelho que acetona nenhuma consegue remover. Fazer o que? Não tenho feito nada. Tenho chorado rios, lagos, mares inteiros. Quando penso que a tempestade acabou falo com a cunhada pelo telefone e caio em prantos; encontro uma amiga querida e no meio daquele abraço cheio de saudade caio eu, de novo, no chororô. Aliás, já entrei recinto adentro avisando que estava mais pra choro do que para riso.

Aconteceu alguma coisa que justifique tamanha emoção? Aparentemente e conscientemente não. Tudo está na sua ordem natural, mas sinto um tsunami interno querendo serenar, uma asa delta querendo pousar, uma sensação de peito vazio, cabeça oca e coração doido. Não tenho febre, mas meu corpo arde, não tenho anemia, mas sinto uma fraqueza de afrouxar as pernas, o corpo, as lágrimas, então.

Entrei 2010 na beira do mar, sentindo um friozinho danado que o termômetro não me deixava mentir: 18°C. Nunca me senti tão sozinha com tanta gente em volta. Rostos e mais rostos absurdamente nada compatíveis com o meu. Nenhum laço de amizade nem de sangue. Não gostei nem um pouco de ser a ovelha negra em um dia que é determinado para se passar com o familião. Embora eu estivesse com a parte mais doce, querida e preciosa da minha família faltavam outros, muitos outros corpos que eu conheço desde muito tempo para serem abraçados esfuziantemente quando as doze badaladas anunciaram o Ano Novo. Paciência, calma e chororô estiveram comigo e ainda estão. Depressão, TPM, melancolia de Ano Novo. Não sei explicar essa força que me leva a desaguar. Mas, como quando não estou chorando estou rindo acredito, e me agarro a isso, que é um bom sinal. Acho que estou limpando a alma. Não é nessa época do ano que se faz faxina grossa, com clorofina e produtos antimofo? Não é justo nessa época a lavagem das escadarias da igreja Nossa Senhora do Bonfim? Nascemos com esse instrumento pequeno - os furinhos por onde saem às lágrimas e o coração que as empurra. Por que não usar?

Andréa Muller

Jornalista

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