Maria está com problemas no casamento. Seguir no mesmo ninho, que já não lhe parece tão confortável, ou construir outro é seu atual dilema. Na aula de ioga a professora anuncia que será dedicada ao casamento. Fitando bem fundo nos olhos de Maria começa dizendo que não adianta trocar de marido, pois a gente acaba carregando sempre os mesmos problemas. Salienta a importância da harmonia familiar e profetiza que quem não comanda em casa não comanda em lugar algum.
A meditação inicial pede que todos relaxem, relaxem e relaxem. A professora fala do amor e pede aos alunos que imaginem seu amor ideal envolto em uma grande bolha. Boa viagem diz a voz suave da intérprete do CD que segue mais uns dez minutos falando da harmonia, da importância e da perseverança necessária para se manter um casamento. Há que se querer e se esforçar muito para isso. Na posição de lótus ela pede que cada aluno visualize a sua frente seu companheiro, com um coração no formato de uma grande gruta cor de rosa e que essa mesma imagem seja imaginada sobre o nosso coração. Logo, estão frente a frente dois corações em formato de gruta cor-de-rosa. Dentro dos dois há uma linda rosa e cada um entrega essa flor ao outro. Ao final, um mantra tibetano muito antigo que evoca a intuição é entoado impedindo a entrada de energias negativas. Maria acredita que aquela aula era pra ela. Ninguém mais precisaria estar ali. Era um sinal de que valeria a pena continuar naquele ninho. Ela chega em casa com o coração cor-de-rosa e planeja uma noite da cor vermelha. Mas, uma discussão acalorada com o marido, que ela imaginou também estar com o coração em formato de gruta cor de rosa, a faz cair em pranto. Depois da briga um silêncio mortal. A cama é o maior termômetro do tamanho da desavença. Quando ambos viram-se de lado, evitam se mexer, seguram a respiração e não dizem nem boa noite, a coisa tá feia. É, a vida não é uma aula de ioga. Melhor aprender outra lição. No dia seguinte novo silêncio. Maria esperou a manhã inteira por um buquê de rosas com um bilhete de desculpas. Nada veio. Na hora do almoço Maria está decidida: irá dar um beijo apaixonado no seu amado e dizer que existem dois caminhos: ser feliz ou brigar. Fez isso e recebeu o beijo de volta, mas ouviu, também, que brigas fazem parte. É como comer, comer e nunca ir ao banheiro. Nunca ouvi nada mais lindo para ser dito em um momento de reconciliação. Mário Quintana deve estar se revirando. São as sutis diferenças entre o sexo feminino e o masculino. Talvez por isso haja um livro chamado "Homens são de Marte, mulheres são de Vênus".
Andréa Muller
jornalista
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