domingo, 7 de março de 2010

Dores da alma

Sentir dor em algum momento da vida é inevitável. Dor de cabeça, dor de ouvido, dor de dente, dor pós operatória, cólica, dor de coisas mais graves, acidentais. Essas dores doem, e muito. Mas, para a grande maioria, a medicina tem um remédio. Pode ser que custe uma fortuna, é provável que o SUS não dê de graça e o doente não tenha dinheiro para comprar. Normal. Em nosso país a distribuição da riqueza está muito longe de ser a ideal. Mas é também na dor que as pessoas são mais solidárias. Aliás, a solidariedade está crescendo a passos largos. Existem muitas ONGs que visam ajudar o próximo no que diz respeito à saúde, alimentação, inclusão social, formação profissional, educação ambiental. Recebi de uma ONG que eu admiro muito um cartão de Natal com uma frase linda de Lama Padma Santen que dizia: "praticando amor e compaixão, você ficará inundado de alegria e energia e saberá que este é o sentido da vida, que isto é felicidade e equilibro". Fiquei com vontade de ser voluntária já.


Não tenho nesse instante nenhuma dor física, já tive algumas. Mas tenho seguidamente dores na alma. Quem jura que não tem mente feio. Elas aparecem quando a gente menos espera, não mandam aviso prévio, não aparecem em nenhum raio-X, ecografia, cintilografia ou sofisticados aparelhos. Às vezes, elas doem muito, mas passam rápido como as chuvas de verão, outras vezes ficam fincando como unhas encravadas. Elas também não escolhem dia nem hora. Chegam de grandes amigos, e eles não deixam de ser grandes porque nos provocam dor. Podem surgir na hora do almoço ou em algum telefonema. É muito comum aparecerem em reuniões de família, quando pais, filhos e irmãos falam sempre mais do deveriam. Será que falam mais ou as verdades ditas são indigestas?


A maioria das dores da alma começa, inevitavelmente, pela boca. São palavras. Mas podem vir, também, através da ação, reação ou do silêncio. É fácil achar soluções para os problemas alheios. Palpite é livre e todo mundo dá, de graça. Só que uns servem como uma luva e funcionam mais do que energéticos, enquanto outros são feitos sob medida para virar a gota d'agua. E, o limite da gota d'gua é tão variável de gente pra gente que pode virar um tsumani. Por isso, vamos aprender a fazer como vovó dizia: contar carneirinhos e refletir demoradamente sobre o que ouvimos de boca calada, pelo menos no primeiro instante.


Andréa Muller

Jornalista

11/11/09

Um comentário:

  1. Eu vejo a palavra,a ação e a reação como manifestações agudas desta dor. O silencio é crônico.

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