Era um sábado qualquer, noite preta, e eu estava pulando de canal com um eficiente aparelho de ginástica dos novos tempos: o controle remoto. Parei, por volta de 1h da manhã, em uma entrevista com Carla Camurati. Fazia tempos que eu não via essa atriz. Loira, magra, de olhos azuis profundos ela conversou com uma repórter por um longo tempo sentada nas escadarias do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Como ela falava muito e apaixonadamente não consegui seguir fazendo minha musculação com o controle remoto. Parei no programa e fiquei até o fim.
Eu sabia que ela era atriz e também cineasta. Mas aquela mulher que eu vi na entrevista, nascida em 1960, tinha algo invejável. Ela acabou de assumir a direção do Teatro onde estava sentada, tem planos ambiciosos de restauração para o centenário símbolo da cultura carioca, já levou crianças para assistirem ópera, tem um filho de cinco anos e já tem uma biografia publicada. Quando ouvi a repórter dizer isso pensei: biografia de Carla Camurati? Nunca ouvi falar. Fui ao Google (que coisa mais útil) e bingo! Carla Camurati - Luz Natural foi escrita pelo crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos, a partir de depoimentos da biografada. Com 311 páginas foi lançado pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Como destaca o autor na apresentação do livro, Carla é ao mesmo tempo muitas mulheres e uma só: livre, instintiva, desafetada.
Fiquei hipnotizada. Admiro pessoas de carne e osso bem resolvidas, donas de si, aquelas que chegam chegando e não saindo. São brilhantes sem purpurina, são expansivas tomando coca zero. Gente que sabe se carregar, que já nasceu com um fio de nylon puxando sua coluna.
Quando a repórter perguntou se ela estava realizada e o que ainda estava faltando na sua vida a danada não vacilou. Carla respondeu com um sonoro e sincero nada. Estou no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas, fazendo o que mais gosto. Isso não é golpe baixo, é golpe alto. Chega a ser intoxicante estar diante de alguém tão vivo.
Eu gostaria que esses seres especiais se multiplicassem. Ainda bem que alguns são públicos e palpáveis. A gente pode ler, assistir seus filmes, sorver com gratidão sua poesia, ouvir suas melodias. E, se eu pudesse, levaria todos para morar no meu quarteirão. Assim, quando a noite chegasse a rua seria a mais movimentada do pedaço.
Fabrício Carpinejar, escritor e vencedor do Prêmio Jabuti deste ano diz o seguinte sobre seu projeto de vida para a próxima década. "Não lembrar que sou feliz para procurar mais felicidade em mim". É isso ai.
Andréa Muller
Nenhum comentário:
Postar um comentário