quarta-feira, 3 de março de 2010

Fale se puder

Estou sentindo na pele o gostinho de ter minhas crônicas lidas. Tenho tido o privilégio de encontrar pessoas conhecidas que me fazem comentários pra lá de queridos. É uma sensação muito especial. Fui ao Teatro Municipal, sentei-me do lado de uma senhora que eu adoro e ela, assim que me viu, me disse que estava lendo minhas crônicas, que gosta, que eu escrevo aquilo que ela gostaria de dizer. No mesmo teatro, na mesma fileira, outra pessoa conhecida me disse a mesma coisa. To caminhando na rua, crianças pela mão, mochila, aquele auê de saída de colégio e minha ex-dentista passa correndo por mim e grita: sou tua fã. Leio você toda quinta. A colega de escola da minha filha também me lê. A mulher do meu colega me olha e diz que não só adorou a crônica da semana como ficou emocionada.

Emocionada estou eu por ter essas pessoas tão especiais como leitoras, por saber que de alguma forma meu texto emociona, faz pensar, está saindo do papel e cumprindo uma missão.

Essa coisa de a gente verbalizar, abrir a boca e dizer algo, como fizeram meus queridos leitores me faz pensar no poder da expressão. Eu estou me expressando através do texto.

E, o resto estamos expressando? O grande pai da frustração é a preguiça de falar e o excesso de expectativa.

Eu imagino que meu amor vai me dar um buquê de flores do campo sem motivo, por nenhuma data especial, apenas porque eu existo e essas benditas flores nunca chegam. E não chegarão jamais se eu não abrir a boca e falar. A manicure não me arranca os pedaços, tira minha cutícula direitinha, deixa minha unha espetacular e eu saio do salão de boca calada. Perdi uma chance de ouro de levantar a moral daquela profissional. Se fosse o contrário, eu também teria todo o direito de perguntar: escuta aqui mocinha, dormiste com os pés destapados essa noite? Quem não bota para fora, engole. Quando a gente pode deve sair cuspindo. Quando não há alternativa, corta-se o sapinho e engole-se pensando que é comida chinesa. Fazer o que?

Estou querendo que a vendedora embale o presente que eu comprei em um escandaloso papel de seda Poá, preto e branco, que ela coloque um laço bem grande. Qualquer coisa que faça o presente chegar antes de ser aberto. Mas ela me entrega na sacola da loja sem frufru nenhum. Burra eu que não fui logo avisando.

Quem quer pede. Do contrário leva o que a vida lhe dá. Pode ser bom também. Mas se você é daquelas que prefere o certo ao duvidoso deixe sua listinha na árvore de Natal que é para não ter surpresas.


Andréa Muller

Jornalista

Nenhum comentário:

Postar um comentário