domingo, 25 de abril de 2010

Rasura

Dia desses, eu coloquei na máquina de lavar um tapete de lã, bordado a mão em ponto cruz. Era grande, tinha mais ou menos um metro e meio por um metro. Ele já tinha sido lavado algumas vezes e eu não pensei que aquela seria a última. Abri a máquina para pendurá-lo esperando encontra-lo macio e com cheirinho de amaciante. Que nada! Ele estava todo esburacado, como se um gato estivesse dentro da máquina e felinamente tivesse feito esse estrago. A vida dele tinha chegado ao fim e uma parte das minhas recordações também. Eu comecei a bordar aquele tapete quando minha primeira filha nasceu. Eu morava numa espécie de casa de campo e tinha pela frente uma licença maternidade que parecia infinita. Passei os nove meses da gestação maravilhosamente bem, sem enjôos, sem dores, só felicidade e fome. Engordei 28 quilos e pulei de 57 para 85.
Fui pega de surpresa pela misteriosa depressão pós-parto. Logo eu que tinha planejado cada detalhe da maternidade, a partir do dia em que teria meu bebê nos braços e uma nova referência na minha biografia: ser mãe. Todo o meu planejamento não saiu como o esperado, meu coração ficou esburacado como o dito tapete tempos depois. Em silêncio eu comecei a bordar. Cada ponto me ocupava o bastante para não pensar em nada, era um refúgio silencioso que não atrapalhava o sono do bebê. Naquele estado de tristeza quanto menos eu precisasse ser mãe melhor. Eu não me sentia capaz e por isso preferi ser bordadeira. Eu fazia tudo o que o bebê precisava, mas no resto do tempo esquecia-me da vida tecendo cada ponto. A tristeza foi embora naturalmente, mas demorou mais do que eu merecia. Deixou de herança o tapete. Mas também há sua hora chegou.
Depressão pós-parto não tem lógica e não pode ser tabu. É uma dor sem resposta que por mais que pareça infinita passa. Eu sempre falei da minha com naturalidade e sobraram muitas marcas que me agregam valor, como todos os bons e maus acontecimentos. No nascimento da minha segunda filha eu nem soube que ela existia.
Meu velho tapete esburacado foi pro lixo. Como diz uma letra da música de Oswaldo Montenegro:
“Que a rasura que foi feita
Foi perfeita na sua hora
E mais que o mais perfeito
Rasurar valeu à pena
Como esteve rasurado
O primeiro original
Do mais lindo poema”.

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