domingo, 25 de abril de 2010

Essencial

Às vezes tenho deixando de falar o essencial. Emudeço, acho que alguém já disse ou que o outro já sabe. Penso em comentar alguma coisa e acabo deixando pra lá porque suponho que o outro já saiba, alguém já tenha lhe contado, ele não tenha tempo para isso, não vai achar importante, vai achar bobagem. Não é possível achar que quem lê o mesmo jornal, vê o mesmo filme ou lê o mesmo livro está sentindo as mesmas coisas e por isso não precisamos nem perguntar.
Estamos levando a vida ou é o contrário? Pessoas juntas, bem pertinho trocam e-mails uma em cada peça do escritório ou de casa falando muito menos do que deveriam. Por preguiça de teclar acabamos falando só o superficial, o mais enxuto. E quando encontramos alguém que não é do mundo virtual, que não tem essa pressa louca de chegar não sei onde, estranhamos. Achamos a pessoa chata, falante demais, perguntadora demais. Loucura! Pressa, preguiça e suposição são minhas grandes vilãs atualmente.
Eu estava no estacionando do supermercado quando se aproximou de mim um rapaz. Ele já foi logo avisando que não era ladrão. Ofereceu-se para colocar as compras no carro e quando eu acendi um cigarro ele já foi logo falando: isso daí mata tia. Minha mãe morreu por causa disso. Sem graça estico um pouco a conversa e pergunto do que ela morreu e ele me responde de câncer. Com quantos anos? Quarenta e sete. Muito jovem, digo eu. Ele diz que sente muita falta dela e que o pai bebe muito. Não entendi se o pai também já morreu ou não.
Eu tinha tanta pressa de colocar aquelas compras no carro, buscar minha filha na casa de uma amiga e ir para casa que desperdicei o diálogo com aquele menino. Quando fui dormir, quando coloquei minha cabeça no travesseiro e fiz um pequeno backup do meu dia, eu me dei conta do que poderia ter sido aquela conversa. Lembro, também, do menino ter dito que não estava indo ao colégio porque lhe faltava um caderno e um livro de matemática. Mas que logo logo ele ia conseguir e voltar à Escola.
Eu confesso: não fiz nada. Eu escutei, mas entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Automaticamente. E, assim tem sido muitas coisas. Será que é só comigo ou é um problema generalizado? A gente escuta porque o outro está falando, mas estamos tão no automático que seguimos realizando todo o resto, respondendo com monossílabos assuntos importantíssimos. Arrã, ta, já vou, agora não.
Ainda no Super encontramos um bebê recém nascido, eu e minha filha. No meio das compras lembro-me dela perguntar mãe você achou aquele bebê bonito? E eu respondi sim. Ela balbuciou alguma coisa que eu juro que não me lembro porque eu estava ocupada demais em escolher qual azeite de oliva colocar no carrinho.

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