domingo, 7 de março de 2010

Recomeçar

Recomeçamos todos os dias. Ganhamos esse presente, privilégio, sorte, dádiva diária que é abrir os olhos e ter um dia inteirinho para gastar, usar, amassar, jogar fora, fazer valer, ser maravilhoso ou uma bela porcaria. A gente pode escolher entre comer saladas e ter um corpão sarado ou se lambuzar comendo uma orelha de macaco (os finos dizem palmier) e ficar com as conseqüências coladinhas na cintura. A gente pode escolher com a razão, com o coração ou com o uni-duni-tê. A gente pode tomar banho quente, morno ou frio, dormir tapada ou destapada, só ou acompanhada. A gente pode tudo, mas, na maioria das vezes, acaba fazendo tudo igual. Fazemos o mesmo trajeto para ir ao trabalho, embestamos que segunda-feira é dia de começar o regime da sopa, que terça se prepara feijão novinho e que sexta é dia de massa. Guardamos as taças mais lindas para uma ocasião especial, a roupa nova para outra ocasião e a torta intacta para quando as visitas chegarem.

Convenhamos o Ano Novo não é tão novo assim. Não é nenhum conto de fadas onde dormimos gata borralheira e acordamos princesa, Barbie, Giselle, Beyoncé. Que bom que fosse! Será? Mesmo com a possibilidade diária de um dia zero quilômetro pela frente reclamamos da vida. Se fosse possível acordar a com a voz da Maria Gadu seria tão fácil que não teria graça nem valor.

Valor é a gente que estabelece, que paga, que cobra. É como o suor, resultado do esforço de quem vai à luta. Tudo é suado, respeitada a proporção e a época vivida. É suado ter quinze anos e viver os medos do desconhecido, é suado tirar dez na prova, passar por média, passar no vestibular, no exame de direção, arrancar o siso, encarar os quarenta, o parto normal, a menopausa, a saudade, a morte, as chegadas e as partidas, criar meninas, manter a fé, os amigos e as contas em dia.

O Ano Novo foi feito justamente pra isso. Pra que a gente possa ter um dia específico, dos 365, em que a esperança dure vinte quatro horas. Vai de meia noite a meia noite. Esperança é recomeço, suor, opção. Então, voltamos à estaca zero. Viu só como eu tinha razão lá no começo desta crônica? Somos todos abençoados. Ganhamos sol e lua todos os dias para nos iluminar. Basta abrir a janela e deixar entrar. Não feche as suas. Use e abuse sem moderação tudo que lhe pertence. E, para encerrar: Fernando Pessoa. "Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". Feliz Ano Novo.


Andréa Muller

Jornalista

Nenhum comentário:

Postar um comentário