domingo, 7 de março de 2010

Para se lembrar a vida inteira

Para se lembrar a vida inteira, essa pequena frase me saltou aos olhos lendo o jornal. Escrevi-a no meu livro de intenções – um pequeno caderno aonde vou guardando recortes de jornal, sinopses de livros que quero ler, filmes que quero ver, projetos que pretendo realizar, desenhos e cartões recebidos, dicas de bons fornecedores, perfumes, sites que valem a visita etc.

O que eu gostaria de lembrar a vida inteira? Que tive pais amorosos, que eles deram bastante duro, me ensinaram o que sabiam, me abriram os olhos, me deram segurança para voltar sempre para casa, criaram um porto seguro com endereço fixo. Ensinaram-me que férias são sagradas e devem ser algo que faça você sair da rotina, por isso devem ser aproveitadas longe de casa, nem que seja no camping mais próximo.

Eu quero lembrar a vida inteira que morei no bairro Bonfim, que aos nove anos vendia revistinhas usadas na beira da calçada e que as outras crianças compravam. Que eu dava voltas e mais voltas de bicicleta no quarteirão falando sozinha, que eu me apaixonei por um vizinho e quando ele passava meu coração parecia que ia saltar pela boca. Eu quero lembrar a vida inteira que fui para a faculdade durante muitos anos de carona com um senhor chamado Alfredo que tinha um fusca verde, era representante de Laboratório e pegava três jovens estudantes de jornalismo, psicologia e arquitetura todos os dias da semana na curva da rodoviária. Eu nunca quero esquecer que vendi brigadeiros durante dois anos na faculdade e que com aquele troco eu pagava meu próprio cinema e minha cuba libra no bar Pecados Mortais no Menino Deus, em Porto Alegre.

Eu quero lembrar a vida inteira que Garopaba foi uma linda vila de pescadores, onde se comprava peixe saído direto do barco, ainda vivo. Eu quero lembrar a vida inteira que acreditei em Papai Noel; comparei meu ninho de páscoa com os das minhas irmãs e contei cada ovinho para saber se a divisão era justa e sempre era. Eu quero lembrar a vida inteira que recebi uma surra tão grande que fiz xixi nas calças porque comecei um caderno novo antes de terminar o velho. Eu quero lembrar a vida inteira que o especial do Roberto Carlos era um espetáculo tão grande que a família toda sentava à sala para assistir como se estivéssemos no teatro e que todos os domingos o almoço na casa da mãe era um inesquecível arroz com galinha feito na panela de ferro.

Eu nunca quero esquecer que minha tia Wilda me pagava dez centavos por cada fio de cabelo branco que eu arrancava dela e que essa tarefa me ocupava deliciosas horas ao som da música de Vanusa Nas manhãs de setembro. Eu quero lembrar para sempre do meu cachorro piti, malhado de branco e bege. Eu nunca quero esquecer as mãos do meu pai nem o sorriso da minha mãe, nem dos abraços que dei.


Andréa Muller

jornalista

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